O desvelamento da depressão

O livro “O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão”, do autor Andrew Solomon examina a depressão em termos pessoais, culturais e científicos.

Baseando-se em sua própria luta e experiência com a doença, entrevistas com os companheiros de sofrimento, além de médicos, cientistas, políticos, usuários de drogas e filósofos, Andrew Solomon revela sutilezas e complexidades da depressão. A contribuição para o desvelamento, não só da doença mental, mas também da condição humana em geral, é impressionante.

Solomon, cujo artigo sobre depressão, publicado na New Yorker, ganhou grande repercussão em 1998, atraiu grande atenção, enfrentando o desafio de definir a doença e da ampla gama de tratamentos com medicamentos disponíveis, a eficácia de tratamentos alternativos, e o impacto da doença sobre várias populações demográficas.

Ele também explora as questões morais e éticas, contrapondo as emergentes explicações biológicas para doenças mentais. Como Jacques Barzun, Robert Hughes e Elaine Pagels, Solomon lança um olhar sobre a depressão e através dele molda uma obra de enorme significado cultural. O livro tem contribuído para mudar a percepção dos leitores sobre a depressão.

O autor compartilhou suas experiências pessoais, e essa atitude acrescentou uma autenticidade dolorosa, porém valiosa para o texto. Trata-se de uma análise aprofundada das diferentes manifestações. Tomando diferentes áreas, ele olha para tudo, desde a política em torno da saúde mental; através de medicamentos utilizados para tratar a doença.

Ao longo do livro, há histórias pessoais que trazem o assunto para a vida, dando ao leitor uma profunda empatia por aqueles que estão sofrendo. Todo mundo vai ser capaz de se relacionar com a profunda tristeza provocada pela dor: e este livro explica por que algumas pessoas terão de suportar essa experiência, ou de pessoas próximas, às vezes desconhecendo as razões.

Este não é um livro para depressivos, embora eles provavelmente vão se beneficiar ao ler, mas como 25% da população sofre de problemas psíquicos, é relevante para todos, pois levanta muitas questões, algumas das quais são controversas, mas todas são discutidas de uma forma inteligente e instigante ao longo do caminho.

O autor mostrou que a deficiência pode ser vista sob uma luz positiva, com enfrentamento diferente, pois aqueles que saem de um episódio depressivo têm mais empatia pelos outros e uma maior capacidade de encontrar prazer nas coisas simples da vida.

Sobre o Livro – “O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão”, foi publicado pela Editora Objetiva, 2002, atualmente Companhia das Letras, traduzida por Myriam Campello, com 483 páginas. O seu título original em inglês: “The Noonday Demon: An Anatomy of Depression”, foi publicado em 2001. O livro ganhou o National Book Award em 2001, foi finalista do prêmio Pulitzer em 2002, incluso no The Times como um dos cem melhores livros da década.

Sobre o Autor – Andrew Solomon vive em Nova Iorque e Londres, nasceu em 1963. Formado em Inglês e Literatura na Universidade Yale, obteve doutorado em Psicologia pela Universidade de Cambridge. Seu livro mais recente  “Longe da Árvore –  Pais, Filhos e a Busca da Identidade”, 2012, todos traduzidos para mais de 20 idiomas. O autor colabora para diferentes jornais, e participa de conferências pelo mundo. Em 2014, participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Trechos

“A depressão é um estado quase inimaginável para alguém que não a conhece. Uma sequência de metáforas — trepadeiras, árvores, penhascos etc. — é a única maneira de falar sobre a experiência”.

“Quando se está deprimido, o passado e o futuro são absorvidos inteiramente pelo momento presente, como no mundo de uma criança de três anos. Não se consegue lembrar de um tempo em que se sentia melhor; pelo menos não claramente; e certamente não se consegue imaginar um futuro em que se sinta melhor”.

“Não façamos rodeios: não sabemos de fato o que causa a depressão. Não sabemos de fato o que constitui a depressão. Não sabemos de fato por que certos tratamentos podem ser eficazes para a depressão. Não sabemos como a depressão 28 29 abriu caminho através do processo evolutivo. Não sabemos por que alguém fica deprimido em circunstâncias que não perturbam outro. Não sabemos como a vontade opera nesse contexto”.

“Uma das funções primordiais da depressão é a de mudar comportamentos não produtivos. A depressão é frequentemente um sinal de que nossos recursos estão sendo mal investidos e precisam ter seu foco ajustado”.

Auriane Rissi

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