A boa literatura erótica: “A Vênus das Peles”, de Sacher-Masoch

Escrito em 1870, o livro “A Vênus das Peles”, de Sacher-Masoch, é marcado pela narrativa erótica possibilitada pelos diálogos e práticas sexuais dos protagonistas do enredo: Severin e Wanda — casal que, por meio de um contrato, registra formalmente qual o papel de cada um dentro da relação. Foi o primeiro romance a descrever fantasias sadomasoquistas explicitamente. A obra foi relançada em 2008 pela editora Hedra, em 160 páginas.

Embora, para a época, tenha sido taxado de pornográfico, o livro não descreve pornografias, a ponto de não haver cenas de sexo propriamente dito. Resumidamente, a história pode ser apresentada da seguinte forma: Severin, jovem nobre — cujo pai possuía terras na região da Galícia (Europa Oriental) — se apaixona por Wanda, também jovem e muito rica, mas viúva, que vivia em sua propriedade nos Cárpatos. O início do romance entre eles se dá com um aprofundado diálogo sobre a impossibilidade de que haja felicidade duradoura entre um homem e uma mulher, sendo que o possível empecilho seria a consequente dominação exercida por um em detrimento do outro.

A solução apresentada pelo autor para o impasse é um contrato em que Severin se torna escravo sexual de Wanda. Em sua vida privada, Masoch firmou contrato semelhante — com duração de seis meses — com sua amante, a baronesa Fanny de Pistor, tornando Severin nada mais que o alter ego do autor e Wanda uma espécie de cópia de Fanny.

O tom erótico do livro se dá nas cenas em que o rapaz é amarrado e fortemente chicoteado pela amada. Em uma das cenas, Severin é forçado a puxar um arado enquanto é chicoteado por Wanda, numa situação de forte humilhação. Outro capricho sexual seu é que Wanda se vista com roupas de pele de animais durante as cenas eróticas. O enredo do livro é permeado de forte apelação psicológica, já que Severin manipula Wanda para que ela se torne uma dominadora cruel e assim lhe satisfaça os desejos sexuais que sempre o envolvem em situações de dor e humilhação.

O personagem Severin chega a se autodenominar Ultrassensual “que busca prazer no sofrimento, nos mais assustadores, até mesmo a morte, assim como os outros buscam a alegria…”.

“A Vênus das Peles” faz parte da coleção Clássicos da Literatura Erótica, da editora Hedra. Por conter descrições explícitas de práticas sexuais tidas como tabus para a nossa sociedade, não é recomendável para menores de 18 anos.

Todavia, o erotismo de “Vênus das Peles” é, por assim dizer, uma espécie de pretexto para abordar a questão da dominação e da submissão em toda e qualquer relação amorosa. Essa tese é reforçada pelo seguinte trecho, ao final do livro: “[…] a mulher, tal como a natureza criou e como o homem atualmente a educa, é sua inimiga, podendo tão somente ser sua escrava ou sua déspota — jamais a sua companheira. Isto, só quando ela tiver os mesmos direitos que ele, só quando por nascimento, pela formação e pelo trabalho, for igual a ele”.

“Vênus das Peles” é o livro mais conhecido do autor, eternizado após o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing cunhar, a partir do sobrenome Masoch, o termo masoquismo — posteriormente empregado por Sigmund Freud —, o que garantiu a Sacher-Masoch e sua obra ainda mais visibilidade.

O romance foi responsável por inspirar de músicas a filmes, como a canção “Venus in furs” de Lou Reed para o álbum “The Velvet Underground and Nico”, e os longas “Venus In Furs”, de Joseph Marzano (1967) e outro de Nieuwenhuijs & Maartje Seyferth, de 1995.  Editora Hedra,160 páginas, R$ 23,00.

2 Comments
  • Sonia valfre

    A princípio pode até parecer que o autor de 50 tons de cinza meio que usou o livro como inspiração … Reservadas as devidas diferenças e situações.

    • Auriane Rissi

      Que bom saber você por aqui novamente. Sobre a obra, os críticos dizem o contrário Sonia. Muito provável que a autora não leu.

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