Enquanto o Sol se põe

Sexta-feira, dia cinzento e a chuva fina indicavam que a apreciação do pôr do sol na casa escultura ficaria para outro dia. Esse outro dia também despontou nublado, mesmo assim estava no firme propósito de voltar à casa que já havia visitado seis anos antes, momento que tive o privilégio de estar com o artista do Sol, Carlos Páez Vilaró.

Na época, uma manhã ensolarada de Março, não haviam turistas, sorte minha, um senhor de cabelos esbranquiçados circulava pelo mezanino, logo percebi de quem se tratava, partiu dele o diálogo ao constatar que era brasileira, falou da amizade com Vinicius de Moraes e das temporadas que o poeta passava em Punta Ballena onde compôs o poema ‘a casa’.

Ouvi relatos da época que fora aluno de Picasso, do qual também se tornara amigo, contou sobre o filho, um dos sobreviventes da tragédia dos Andes, soube que participou da missão de busca e salvamento.

Sobre a casa que virou ateliê, galeria, labirinto e morada do Sol, confidenciou que respeitou a imaginação para edifica-la.

Nossa paixão por gatos abreviou formalidades e estendeu a conversa, falou sobre Luna e Sol que moravam na casa, e dos outros sete que habitavam a casa em Buenos Aires, batizados com o nome dos dias da semana.

Atendendo a um chamado precisou se retirar, antes porém me presenteou com uma gravura e recomendou que retornasse para assistir à Cerimônia do Sol, que poderia ocorrer com a declamação presencial por aqueles dias. Agradeci! Não retornei à casa naquela estada; choveu o restante dos dias que permaneci por lá.

Agora era chegada a hora de atender o convite, porém me entristecia o fato dele ter falecido em Fevereiro, aos 90 anos. Mas artistas não morrem.

Eis que a visita programada no Sábado de céu emburrado não aconteceu, como se só fizesse sentido ir à Casa do Sol em dia ensolarado, porém não tinha garantia de que ele apareceria. No Domingo, para meu deleite o céu amanhecera com um brilho inigualável.

O retorno a Casa Pueblo, agora para assistir a Cerimônia do Sol aconteceria nesse dia. O caminho até o local, para alguns uma casa, para mim uma escultura gigante é belíssimo, fica numa colina com vista privilegiada para o horizonte, frente ao mar calmo da região.

Circulei pelos cômodos como quem desejava topar com anfitrião de outrora, bateu certa nostalgia. Já na varanda com todos os espaços tomados por pessoas ansiosas para assistir o poente, busquei o melhor ângulo e me preparei para a nobre finalidade.

Ele tinha razão, é um grande espetáculo, o ocaso mais lindo que já presenciei, doze minutos de pura magia, todos os sentidos envolvidos para absorver cada segundo, o poema recitado por Vilaró ecoa pelos alto falantes e o artista presta homenagem ao seu amigo mais antigo, como havia comentado em nosso encontro.

“Tchau Sol…Obrigado por provocar uma lágrima, ao pensar que também iluminou a vida de nossos avós, nossos pais e entes queridos e de todos os que não estão mais juntos a nós, mas que te seguem e de você desfrutam de outra altura.”

Uma despedida poética, emocionante, as andorinhas alvoroçadas apresentam um balé que compõe o cenário, mar, horizonte, uma casa única e o Sol. Vilaró ao idealizar a casa do Sol traz para perto, para junto, como se emoldurasse o momento para ser apreciado, e disso não fazemos parte, independe de nós, não é possível interferir, apenas assistir, registrar, sentir.

A impressão é que faltam palavras para mensurar…um misto de pequenez diante da magnitude desse espetáculo, da importância do Sol, da força magistral da natureza, de ser a mesma coisa e nunca igual.

A certeza que um artista não morre nunca, se mistura ao seu legado. Percebi o artista vivo em suas obras. E o homem presente nos felinos, através do amor que dedicava.

Que as fotos falem o que faltou dizer!

Leave a Reply

You may use these HTML tags and attributes <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>