Na carência queremos um príncipe ou uma princesa não para viver uma linda história de amor, mas para suprir nossas faltas

Estamos carentes quando somos flagrados procurando alguém que nos ame, nos dê carinho e atenção. Dentro do contexto, não buscamos alguém para amar, cuidar reciprocamente. Relação equilibrada é via de mão dupla.

A sensação de incompletude quando estamos carentes é tamanha que a confirmação deve vir do outro, pois há insegurança quanto a conquista e manutenção do relacionamento, mesmo considerando que somos merecedores.

Na carência queremos um príncipe ou uma princesa não para viver uma linda história de amor, mas para suprir nossas faltas, elevar nossa autoestima, preencher lacunas existenciais. Uma relação complementar naquilo que não temos.

Não há problema na complementaridade, afinal nos relacionamos por afinidade e/ou complementaridade – a primeira abrevia, a segunda é desafiadora porque cada um trás consigo suas diferenças, e fazer dar certo é a questão chave. 

O adoecimento acontece quando queremos que o outro nos complemente naquilo que não somos. 

Nesse exato momento, começamos a anular o que nos é legítimo, para ter alguém do lado, esquecendo o amor próprio, o autorrespeito, perdendo o orgulho necessário para manter a dignidade, que impede que renunciemos de nós em prol do outro.

Outro agravante na carência é sua parceira, a ansiedade. Sua companheira faz com que nivelemos por baixo, sem nos permitir conhecer a pessoa, seja para amizade, para namorar, ou ‘viver feliz para sempre’.

Contentar-se com qualquer cia para não ficar só, por medo da solidão é colecionar frustrações, pois o risco de atrair babacas, pessoas manipuladoras é enorme – mentes que se aproveitam de nossa frágil condição.

A ansiedade rebaixa  a crítica, e um olá tem o significado ampliado, suscitando fantasias e instalando a esperança. Um ‘eu te amo’ então… já se encarrega de formatar inúmeras projeções em torno da pessoa que proferiu a declaração: faz perceber afeto onde não existe.

Se bastar é o diferencial para iniciar uma relação, onde se vive um dia de cada vez, sem pular etapas, sem imaginar de imediato o outro recém chegado como o melhor amigo/a de infância, ou dividindo o mesmo teto, sem ao menos ter acontecido o primeiro beijo.

Carência se cura com amor próprio, com um bom livro, um programa aprazível, coisas triviais que nos colocam em contato com a gente mesmo, pois no apagar das luzes temos que nos aturar todo o tempo: e não dá para fugir de si mesmo.

Auriane Rissi

2 Comments
  • Priscila

    Poxa vida me identifico muito com texto. Apesar de querer parecer durona e a que não se apega , eu acabo fantasiando sempre uma vida inteira com alguém antes mesmo do primeiro beijo. Ansiedade acredito que já meu ponto fraco . Amei texto . Parabéns

    • Auriane Rissi

      Priscila, viver plenamente os afetos é salutar, porém deve haver reciprocidade. Que bom que ‘amou’ o texto. Grata!

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