Cinco livros de autores goianos

Os cinco livros listados neste post são de autores goianos nascidos do início a meados do último século. São eles: ‘Couto de Magalhães — O Último Desbravador do Império’, do médico e escritor Hélio Moreira, que narra detalhes dos costumes de Goiás ao traçar perfis de pessoas simples que acompanham o personagem principal na empreitada de desbravar o Estado; ‘A Friagem’, contos da goianiense Augusta Faro que ganhou destaque nacional e foi traduzido para três línguas, além de ter sido leitura obrigatória nos principais vestibulares de universidades goianas. Augusta Faro é prima do escritor Bernardo Élis, e sua avó — também Augusta — foi a primeira mulher a publicar um livro em Goiás. ‘Naqueles Morros, Depois da Chuva’, de Edival Lourenço, ganhou o 2º lugar no Prêmio Jabuti em 2012 ao narrar uma história que se passa em 1739 sobre a independência administrativa das minas de ouro do futuro Estado de Goiás. O autor, filho de pai e mãe analfabetos, mescla neste livro fatos reais e ficção, explorando ao máximo sua vivência pelos garimpos durante a infância. ‘Casa Entre Vértebras’, do escritor e psicanalista Wesley Peres, venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2006. O livro se sustenta nas tentativas frustradas de um homem em se descrever numa carta para se apresentar a uma mulher. A narrativa aborda questões sobre o ser, a morte, o silêncio, a religião, a solidão, a infância, o amor e a loucura. ‘A Hora dos Ruminantes’, do escritor José J. Veiga, teve sua primeira edição em 1994, sendo a mais recente de 2015. O autor faz uso do alegórico e do realismo fantástico para descrever a vida em uma pacata cidade que, da noite para o dia, se vê dominada por estranhos que passam a impor suas regras aos moradores.

Couto de Magalhães — O Último Desbravador do Império, de Hélio Moreira

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Romance de Hélio Moreira (1938), médico e escritor mineiro radicado em Goiás, o livro publicado pela Editora Kelps narra com riqueza de detalhes os costumes goianos, tornando o livro uma referência sobre a cultura local, por trazer informações históricas sobre o Estado. Lançado em 2005, traz ilustrações e linguagem que reforçam características reais do modo de viver goiano no século passado. O antropólogo e indigenista Couto Magalhães, personagem principal, vai traçando em sua trajetória os perfis dos cidadãos simples que o acompanham na tarefa de desbravar o Estado. A ênfase na linguagem sertaneja reforça a veracidade dos relatos, embora se trate de ficção. Hélio Moreira é especialista em Coloproctologia e Cirurgia do Aparelho Digestivo, profissão que sempre conciliou com a vida de escritor. Foi presidente da Academia Goiana de Letras na gestão 2009-2011, tendo presidido também outras entidades ligadas à Maçonaria e à medicina. Publica com frequência artigos sobre esses temas em jornais locais, como ‘O Popular’ e ‘Diário da Manhã’. Editora Kelps, 268 páginas, R$ 30.

A Friagem, de Augusta Faro

A Friagem, de Augusta Faro

O universo íntimo da mulher é o ponto de partida para o romance de literatura fantástica da escritora goiana Augusta Faro (1948). Lançado em 1999, sendo a edição mais recente a de 2001 pela Global Editora, o livro de contos é composto por histórias intrínsecas ao viver feminino e mistura realismo (os sentimentos e vivências comuns às mulheres), o fantástico (as sereias) e o absurdo (Check-Up). A vida em Goiás, sobretudo na antiga Vila Boa (hoje Cidade de Goiás, terra natal da autora), é o cenário em que se desenrolam as histórias, embora o local exato não chegue a ser especificado. ‘A Friagem’ repercutiu Brasil afora a partir de um ensaio de Roberto Pompeu de Toledo, crítico e escritor da revista “Veja”. A obra foi indicada pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro para tradução em três idiomas, tendo sido indicada para vestibulares da Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Augusta Faro está listada na obra ’25 Mulheres Que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira’, seleção organizada em 2004 pelo crítico e escritor Luiz Ruffato, publicada pela Editora Record. Global Editora, 149 páginas, R$ 28.

Naqueles Morros, Depois da Chuva, de Edival Lourenço

Naqueles Morros, Depois da Chuva

Lançado em 2011, o livro de Edival Lourenço (1952) ganhou o 2º lugar no Prêmio Jabuti em 2012. A história se passa em 1739, quando o governador da Província de São Paulo e Minas dos Goyazes, Luís de Assis Mascarenhas, fidalgo português, viaja ao Arraial de Santana com o objetivo de tornar as minas de ouro em província autônoma, o que levaria tempos mais tarde à independência do Estado de Goiás. Os acontecimentos com o nobre e sua comitiva são narrados por um filho bastardo do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, responsável por descobrir ouro em Goiás. ‘Naqueles Morros, Depois da Chuva’ é a primeira parte de uma trilogia que busca reconstruir, por meio de fatos reais e ficção, como se deu a colonização em Goiás. O tom de veracidade da narrativa é reforçado pela junção de dados obtidos em pesquisas minuciosas, além do linguajar adquirido pelo autor em sua infância. Editora Hedra, 236 páginas, R$ 40.

Casa Entre Vértebras, de Wesley Peres

Casa Entre Vértebras

Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, de abrangência nacional, o livro do escritor e psicanalista  Wesley Peres (1975) leva ao leitor uma proposta de leitura desafiadora: ler um romance estruturado em seções de curtos parágrafos ao longo de 224 páginas. Narrado em primeira pessoa por um personagem cujo nome não é dito ao leitor, ‘Casa Entre Vértebras’ se sustenta nas tentativas frustradas desse homem em escrever uma carta que possa apresentá-lo a uma tal Ana. Ocupam a narrativa questões sobre o ser, a morte, o silêncio, a palavra, o cotidiano, a religião, a solidão, a infância, o amor e a loucura. Na busca por apresentar-se em forma de palavras para Ana, o personagem-narrador começa a compor uma espécie de dicionário de si mesmo, sendo que a paranoia se aloja em sua tentativa incessante de viver ‘sintaticamente’, levando-o sempre para o silêncio. Editora Record, 224 páginas, R$ 45.

A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga

A Hora dos Ruminantes

Em ‘A Hora dos Ruminantes’, do escritor  José J. Veiga (1915 –1999), conta a história de Manarairema, um lugarejo sossegado que, inesperadamente, é dominado por homens desconhecidos dos habitantes, que se alojam em um acampamento nas redondezas e dia após dia mudam as regras da pequena cidade. A partir de então os moradores lidam com duas invasões de animais — cachorros e depois bois — que após os assustarem e acuarem, vão embora sem que haja uma explicação, assim como ocorreu na chegada. Com o emprego do alegórico e do realismo fantástico, o autor desenvolve o romance usando símbolos, estilo que também visou denunciar o cenário ditatorial do Brasil, envolto em censura. O cair da noite em Manarairema é uma evocação ao sofrimento, à escuridão e à friagem. Companhia das Letras, 152 páginas, R$ 34,90.

4 Comentários
  • J. R. Breseghello

    Acabo de comprar “A Hora dos Ruminantes” , juntamente com a reedição de “Os Cavalinhos do Platiplanto”, ambos em capa dura! Quem resiste a um bom livro numa edição linda e hard cover? E o segundo fez parte das minhas leituras juvenis…

    • Auriane Rissi

      José Reinaldo, ano do centenário de José J. Veiga, edições comemorativas e oportunas para relembrar sua obra. Melhor não resistir.

  • Izaura Franco

    Auriane, parabéns. A sua abordagem de todas as obras e breve síntese dos autores. Não li todos os livros, principalmente os esgotados (rs), mas você despertou em mim a vontade de ler e reler todos, uma apresentacao psicológica que não fui capaz de ver quando li Edival, Faro e Veiga. Abraço.

    • Auriane Rissi

      Izaura, que alegria saber você por aqui. A ideia é essa, despertar o interesse para a boa literatura goiana, que aprecio. Obrigada! BjBj

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