Sobre as Emoções – Culpa

Ao versar sobre culpa vêm à mente uma das grandes questões filosóficas – o que é certo e o que é errado. Não como tentativa de definir, pois não seria possível fazê-lo neste momento, se trata de um assunto intrinsecamente ligado à cultura, à religião, e as crenças individuais. Tema para longo debate. Por hora, o que pode ser feito é questionar a razão de algo ser correto ou não dentro do contexto.

A culpa existe como uma emoção fabricada. Possui pouco ou nenhum realismo. É difícil defini-la como uma verdadeira emoção. Amor, medo, raiva, tristeza e tantas outras emoções, ambas têm componentes positivos e negativos. Há quem diga que a culpa não serve a nenhum propósito útil. É uma distração aos verdadeiros sentimentos. Claro, muitas pessoas usam isso como um motivador:

‘Eu me sentiria culpado se não fizesse isso.’

É chamada de um ‘motivador expediente’. Ou seja, é usada quando não há princípios baseados em motivação. É um atalho para inspirar a ação. Culpa basicamente se resume à manipulação. A função – a propósito – de culpa envolve a manipulação de si e aos outros a tomar algum tipo de ação ou de seguir algum tipo de conduta. 

O apego ao julgamento, ao invés de tornar o indivíduo mais responsável e coerente aos pensamentos, sentimentos e ações, abrevia seu potencial, porque é um obstáculo para a autenticidade. Eliminando o véu da culpa é possível estar mais conectado com o que é vivenciado, os pensamentos e as ações à luz dessa experiência e, assim, estar mais presente a cada situação, emoção e de si mesmo.

A cultura ocidental se baseia principalmente na ética de Abraão (Cristianismo, Islamismo e Judaísmo). Um dos princípios elementares de cada uma dessas religiões é que se você não começou fazer algo errado, você está se preparando para fazê-lo, ou se já tiver feito algo errado, você vai ser punido por isso. Aqui, encontramos a gênese da culpa.

A cultura é profundamente enredada nesta ética de medo e punição a ponto da sensibilidade ser tecida no próprio viés. Sendo a culpa um imperativo cultural, é praticamente inevitável livrar-se, mesmo sendo ateu. Então, por que a culpa é uma emoção desperdiçada? A mesma velha música e dança – se você é culpado é porque você está apegado a julgamento que vem de fora.

Você está indo para fora de si mesmo para definir quem você é. E, por associação, como você se comporta, em vez de confiar em seus mecanismos internos de tomada de decisão e de autorregulação, transfere sua crítica aos outros. O fato é que, se uma pessoa é razoavelmente bem constituída distingue o certo do errado, o bom do ruim o sensato do estúpido.

Atribuindo juízo de valor é possível saber o que não deveria estar fazendo, e culpa (leia-se: juízo internalizado) não deve realmente ter nada a ver com isso, antes do fato ou depois. Uma vez revelado quem o está julgando e porque, poderá modificar o pensamento de auto-estigmatização e entrar em uma relação autêntica com a situação vivida.

O tema abordado não trata da culpa ética, sem dúvida é fundamental para que o ser humano refreie determinados instintos destrutivos; o objetivo é permitir saber quando algo errado foi cometido, para ajudar a desenvolver um senso crítico de como isso pode afetar as relações, reexaminado ações para não cometer novamente. Isso contribui para desenvolver o senso crítico – certo/errado.

O problema surge quando o comportamento não é algo que precisa ser reexaminado, nem é algo que precisa ser mudado.

Essa é a questão central, a culpa do ponto de vista psicológico, como uma barreira que afeta o prazer e o livre fluir de determinadas emoções. Por exemplo, as mães se sentem mal em voltar a trabalhar em tempo parcial, com medo de causar danos para o desenvolvimento normal da criança. No entanto, a maioria das crianças tem um desenvolvimento normal e saudável, mesmo quando ambos os pais trabalham.

Não há nada para se sentir culpada, e ainda assim fazê-lo. Isto é conhecido como ‘insalubre’ ou ‘inadequado’, nesse caso a culpa não serve a nenhum propósito racional. Há também casos de pessoas que após determinada experiência de alegria, ficam deprimidas, embotando o prazer sentido. Esta é uma das raízes da culpa, estabelece que o indivíduo não possa ser merecedor de algo extremamente positivo.

A culpa se torna então uma espécie de fuga da angústia, reprimindo todos os desejos pessoais do indivíduo e tolhendo sua liberdade. A personalidade culposa é caracterizada pela ausência da noção de direitos, como se tudo dependesse do aval de outra pessoa. Há um acusador interno que faz com que o indivíduo se sinta culpado de forma desproporcional às ações cometidas. Sua dinâmica destrutiva leva a pensamentos de inadequação em relação ao que os outros pensam e esperam que deva ser realizado.

Níveis de culpa e autoestima estão intimamente relacionados. Indivíduos com baixa autoestima são mais propensos a profundos sentimentos de culpa. Há probabilidade da culpa estar vinculada a alguns traços de personalidade como timidez, falta de habilidade social, assertividade e isolamento. Causa de muitos transtornos emocionais, é gerada pela consciência de como as ações podem ser julgadas pelos outros de modo censurável.

Este estado emocional afeta o indivíduo, mesmo quando age na única maneira possível, dada uma circunstância particular. Tais circunstâncias vividas permanecem latentes, impedindo que o presente seja absorvido. Por se tratar de algo ligado ao passado, e sem possibilidade de voltar no tempo para modifica-lo, emerge como uma emoção nociva.

Essas pessoas passam a ter dificuldade de sentir prazer pela vida, refletindo na qualidade das relações, podendo se tornar disfuncional a ponto de reduzir o elan vital, seguido de estado depressivo. É importante salientar que há o condicionamento para sentir culpa, feito por pessoas muito bem intencionadas. Pais, professores, irmãos, avós que passaram ensinamentos cunhados a partir da culpa.

Assim, a culpa muitas vezes se confunde com amor. Ou melhor, está entrelaçada com a concepção do mesmo. Crenças fortemente definidas e profundamente arraigadas em atitudes e suposições que fazem parte da conserva cultural. Uma mensagem inicial é recebida. Mensagens, comportamentos, ações que essas pessoas emitem.

É importante questionar quais são as estratégias que as pessoas de fora (outros) usam para gerar esse sentimento de culpa (voluntária ou involuntariamente)? Ao receber esse conteúdo há como se defender? Como essas mensagens vêm? Que desdobramento haverá a partir desse evento? A reação instintiva para sentir culpa pode ser substituída por um sentimento real? No estado culposo é possível entrar em contato com os verdadeiros sentimentos?

Na impossibilidade de elucidar essas questões individualmente, a psicoterapia passa a ser fundamental no sentido de fazer com que a pessoa identifique o acusador internalizado e aprenda a dar respostas novas. Vale lembrar que ninguém é perfeito, até mesmo ‘os outros’ que parecem levar a vida nesse estágio estão em fase de aprendizado e evolução.

Buscar a perfeição em qualquer instância da vida é receita para frustração. Todos cometem erros, isso é estatística, pois muitas coisas fogem do controle absoluto. Atitudes hora julgadas corretas podem trazer outra conotação no futuro e vice-versa. A chave no entanto é perceber o erro e extrair uma nova crítica, evitando a autopunição que provoca prejuízo à própria autoimagem; cada um faz o que da conta naquele momento.

Auriane Rissi

4 Comentários
  • Cassia Pires

    Olá Auriane,
    Terminei de ler seu artigo sobre As Emoções-CULPA e achei sensacional!
    Parabéns!
    Cassia

    • Auriane Rissi

      Cassia, feedback como esse é estímulo para prosseguir. Grata. BjBj

  • izabella

    muito bom o texto, :)

    • Auriane Rissi

      Grata! BjBj

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