Por que mudar é difícil?

Mudar pode significar um salto no escuro. Na falta de referenciais ocorre a sensação de queda, ausência de chão firme, em última análise perda de certezas.

Nesta etapa a sensação é terrível, são questionados princípios, valores e crenças que acompanharam o indivíduo durante anos.

Aqui começam as dificuldades, pois ao fazer isso, denota-se que coisas importantes e valorizadas na verdade não passavam de conservas culturais e idealizações, aumentando a dúvida.

Mudança duradoura de comportamento é objetivo almejado, porém não se trata de uma tarefa simples. A todo momento é possível observar pessoas insatisfeitas com esse ou aquele “modus operandi” que não lhe favorecem e urge mudar. Na maioria dos processos de mudança a transição não acontece de maneira fácil, nem rápida, e, durante ou depois de algum tempo, pode ocorrer a repetição, conservando a mesma estrutura.

O comportamento repetitivo para o bem ou para o mal ajuda a pensar sobre o que faz as pessoas permanecerem com suas respostas engessadas, acompanhadas de prazer e desprazer. Pensando de forma lógica, aquilo que causa prazer e/ou desprazer, também causa repetição. Pontos de satisfação causam repetição.

Crianças costumam fazer isso constantemente; pedem toda hora para repetir de forma incansável uma atividade que lhes trouxe satisfação. Os adultos também, em outro contexto continuam repetindo comportamentos inconscientemente, prazerosos ou não.

Uma causa aparente que favorece a estabilidade de padrões de comportamento é o aumento de ansiedade que as mudanças geram.

Conscientemente parece haver a compreensão dos benefícios resultantes na mudança, entretanto existe um empecilho: mudar de comportamento significa, primeiramente, analisar o comportamento atual, ou seja se autoconhecer.

Durante o processo evolutivo, a redução da ansiedade foi um mecanismo importante que contribuiu para a manutenção da vida, porque em intensidade elevada e/ou por tempo prolongado resulta em danos ao organismo. Em certos níveis, são disparados mecanismos que tentam reduzi-la, e um dos primeiros eventos que ocorrem é a tentativa de remoção do estímulo aversivo.

Em outras palavras, se pensar sobre o comportamento é algo que aumenta ansiedade, a forma mais fácil de minimizá-la é simplesmente desviar o foco, interrompendo o pensamento.

Ao imaginar, por exemplo, uma situação de conflito onde a mudança de comportamento seria benéfica: um casal, cuja fonte de atrito é o desejo por parte da mulher de ter do companheiro contínuas manifestações de afeto, contra o desejo do marido de poder “ser ele mesmo”. Diante disso surgem sentimentos de frustração e menos-valia entre ambos.

Na discussão, cada um defenderá sua verdade, pelo seu ponto de vista – a mulher sente falta de demonstrações de carinho; o homem sente-se bloqueado e incapaz de tais demonstrações. Ao fim da discussão, cada um cede um pouco: aproximam-se em termos afetivos, e assim permanecem por algum tempo.

Desta forma, a ansiedade é aumentada, num primeiro momento, e depois reduzida a níveis suportáveis para os dois. Entretanto, outras discussões virão, pois o fator desencadeante das demandas não foi desvelado, perpetuando um padrão de comportamento que faz o casal permanecer fixado em si mesmo.

Mas o que aconteceria se os protagonistas começassem a pensar na relação que tem com o outro, sobre seus comportamentos, sentimentos e suas consequências?

A mulher inicia a reflexão acerca dos cuidados para com o parceiro, do tempo “perdido” em como se dedicou a ele e como ele está distante ao não corresponder suas expectativas. Isso certamente vai despertar sentimentos de ansiedade, desencadeando cobranças, pelo pressuposto: “Faça isso e aquilo, dessa maneira entenderei que suas demonstrações são legítimas”.

Nesse caso, se a mulher ao invés de afetar o equilíbrio, refletisse sobre as causas de sua insatisfação e quais as consequências que isso gera para a relação, poderia se dar conta que o marido não é o único “culpado” pela suas frustrações, e atentar para outras causas que podem estar por trás, autoestima baixa, uma possível desvalorização em outras áreas, como por exemplo, sua profissão ou estar sendo preterida nas relações de amizade.

A outra parte percebe que lidar com as exigências da esposa causa desconforto, mas ainda assim é mais fácil do que resignificar vivências passadas que contém cenas temidas. Seria o momento de refletir o que lhe causa tanto bloqueio, porém mexer no lixo emocional num primeiro momento gera prejuízos e maior ansiedade, e na maioria das vezes são eles que alimentam os conflitos no presente.

Essa percepção, a causa em si tornando-se consciente pode trazer sensações desagradáveis exigindo ajustamento, perturbando o equilíbrio interno seja qual for a alteração, independentemente da sua valência positiva ou negativa, mas a partir do momento que é identificada, é importante confrontar e buscar resoluções.

O que dificulta a mudança do comportamento não é falta de capacidade de pensar sobre os problemas, mas sim uma espécie de “armadilha” emocional que visa manter o indivíduo na zona de conforto, através da evitação dos pensamentos ansiogênicos.

Sempre que pensar sobre algo gerar tensão, a primeira reação será combater este pensamento. Como isso geralmente dá certo compreende-se porque é tão comum as pessoas pensarem pouco sobre seus próprios comportamentos e tenham tanta dificuldade em modifica-los.

Essas mesmas pessoas, em suas relações interpessoais, apontam soluções mágicas para os problemas dos outros, as intervenções na vida de terceiros são assertivas e as mudanças ditas fáceis de acontecerem – se fosse eu no lugar de fulano ou ciclano já teria tomado tal atitude.

Olhar para si é mais complexo, demanda tomada de consciência e ação, por isso olhar para o lado e não entrar em contato consigo mesmo preserva o emocional de tensões e cobranças internas que incitam a mudança.

Há os que usam a renúncia como estratégia para lidar com a vida e logo percebem que escolheram ficar fora de seu próprio jogo, em vez de participar com entusiasmo.
Estar envolvido em um processo dinâmico de mudança contínua conduz ao enriquecimento pessoal.

Pensar sobre o comportamento e efetuar as mudanças, mesmo que doloroso, tende a trazer a longo prazo mais benefícios, pois os conflitos já compreendidos e trabalhados tendem a exigir menos emocionalmente, disparando menos os mecanismos de ansiedade e aumentando a qualidade de vida.

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