Por mais dias em negrito

Dias em negrito, leia-se aqueles que valem a pena, colorem a vida, liberaram ocitocina ao invés de cortisol, causam frio na barriga, sensação de borboletas no estômago e deixam gostinho de quero mais, em momentos vividos ou que estão por vir. Parece devaneio descrever sensações assim em tempos de afetos líquidos, porém não custa nada, afinal ser feliz é acima de tudo uma questão de escolha.

Mas tem a tal da zona de conforto, o piloto automático, o ficar em cima do muro, que definem bem as situações de comodismo que nos levam a apenas existir, e nossa razão apropriada é a de viver, não os números do calendário, mas a soma de realizações – sem esse discernimento ficamos desperdiçando dias na tentativa de prolongá-los, ao invés de usar o tempo a nosso favor. O tempo que temos é o agora.

Seguindo o fluxo, com o piloto automático acionado, consciente ou inconscientemente nos sentimos aparentemente bem, mas, se em determinado momento algo começar a incomodar, o balanço é inevitável, daí você se pergunta: Se fosse anotar os momentos, quais seriam em negrito? Sim, quais momentos valeriam grifar, não me refiro a garantia de felicidade constante, mas a inspiração necessária para nos tirar da forma, da rigidez da rotina, e suspirar.

Quando foi a última vez que a vida surpreendeu, ou melhor, que permitimos que nos surpreendesse, sem preocupar com o que os outros iriam pensar?

E sobre se apaixonar… Quando foi a última vez? Por uma pessoa, uma causa, um desafio. Daí, nessa de registrar momentos, algumas sugestões: abraçar apertado, ouvir sua música preferida ou o CD inteiro, um café no meio da tarde, banho de chuva, aquela viagem, adotar um animal, plantar uma árvore… Ah! Mas não sobra tempo, tá bom, mas o dia tem 24 horas para todos, a forma de preenchê-lo e dar sentido é escolha de cada um, pessoal e intransferível.

É certo que não há uma receita pronta, se houvesse, a prescrição seria atuar no palco da vida, não ser mero coadjuvante na vida dos outros, sair do comodismo, sem essa de viver no âmbito da fantasia, no como se, talvez amanhã, por a culpa no cansaço, dor nas costas, dor no joelho, bolha nos pés, o que os outros vão pensar, e outras desculpas que acabam hipotecando nossa biografia.

Então… O que somaremos afinal? O que sabemos sobre nós mesmos e o que queremos? O que vale o risco? O que eu quero da vida? O que eu mais quero da vida? Como anda a liberdade, nos propagamos livres ou nos sentimos de fato assim? Para isso é necessário destinar algum tempo para refletir sobre, e por alguns instantes esquecer a influência dos outros, o que os outros querem ou esperam.

Assim de atitude em atitude, de escolha em escolha vamos desenhando a pessoa que de fato queremos ser, e os momentos que queremos registrar em negrito.

Auriane Rissi

1 Comentário
  • Clemente

    Belo texto!
    As vezes lutamos por acomodação, ao mesmo tempo que ela nos incomoda.

Deixe um comentário

Você pode usar estas tags HTML <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>