Penso, logo duvido!

Ao afirmar ‘a dúvida é o princípio da sabedoria’, Aristóteles aponta o conhecimento como papel primordial na existência humana, a dúvida é o despertar para esse conhecimento. Quem se inquieta diante dos fatos e duvida, tem vontade de aprender, saber mais e mudar o que estiver ao alcance e controle.

Quase todos os dias nos deparamos com encruzilhadas. Sinais podem levar a múltiplas direções, gerando dúvidas. Qual é o caminho a percorrer? As alternativas são muitas e nem sempre é possível mensurar custo benefício. Essas situações de dúvida causam tensão psíquica caraterizada por forças conflitantes — o dilema das decisões e a necessidade da crítica.

O paradoxo de lutar com a dúvida — como com todos os sentimentos — é que somente seu desvelamento permite iluminar os significados. Dúvida não é um estado — uma forma estática onde o indivíduo possa permanecer inalteradamente. É a variante entre um sim e um não. Tão logo aceitos como definitivos, eliminariam imediatamente a dúvida, feita de sua coexistência oposta e de nada mais.

Uma pessoa lutando contra as forças de oposição vive um conflito interno. O conflito quando ocorre em uma situação em que o confronto torna-se irreconciliável entre indivíduos, grupos, instituições ou nações, é definido como externo. A existência então, de acordo com o significado do termo é uma batalha constante.

Discorrer sobre dúvida nos remete a Descartes que assegura-nos ter encontrado, no fundo, a certeza da dúvida: ‘a dúvida é um pensamento, e, no instante em que a penso, não posso duvidar de que a penso’. Ele inicia este caminho a partir dela mesma, a dúvida, ou seja, é preciso duvidar para chegar à certeza das coisas.

A dúvida cartesiana, ao contrário da dúvida cética, é uma possibilidade de afirmar através de um ato de vontade a independência do sujeito do objeto, e em seguida, uma maneira de superar todas as formas de incerteza psicológica. É o resultado de uma escolha em que reivindicou a sua capacidade e sua autonomia em relação ao objeto.

Daí o reconhecimento da verdade do que uma declaração que se apresenta como imediatamente clara e livre de qualquer possibilidade de dúvida: cogito ergo sum — penso logo existo. Aqui o pensamento testemunha a si a sua própria existência. O ‘cogito’ é a dúvida em qualquer condição.

No entanto a fiabilidade plena às informações provenientes apenas dos sentidos não é absoluta, haja vista que ocorrem erros de reconhecimento ao olhar, ouvir, tocar.Inicialmente uma dúvida pode parecer trivial, mas, gradualmente, se avoluma, dificultando a resolução apenas com o ‘uso’ dos sentidos.

Nesta transformação (de dilema simples em grande conflito) desempenha um papel fundamental a consciência emocional do indivíduo, a personalidade e a capacidade de análise. A necessidade de adaptação ao meio ambiente de constante mudança, junto com outras necessidades secundárias, tem estimulado o cérebro.

O estímulo permite desenvolver diferentes funções e habilidades mentais: perceber, pensar, agir e imaginar.

A consciência de ser, não só no mundo, também ser capaz de ser proativo; a realidade através do comportamento, a fim de viver melhor, contribuíram para a aquisição do potencial da razão instrumental. A consciência de si mesmo é uma dimensão complexa, vai da percepção momentânea de pensamentos, emoções e sentimentos.

Faz-se necessário o reconhecimento da identidade pessoal e relacional; portanto, a definição das fronteiras como pessoa.

Cabe citar as alterações bioquímicas no cérebro, ao mesmo tempo, os processos mentais (pensamentos) e as reações fisiológicas (emoções) que afetam, em cada momento da vida, o comportamento. A maioria dos comportamentos (positivo ou negativo) são aprendidos através da experiência, automaticamente.

O adolescente é o símbolo por excelência da dúvida. No nível físico há um corpo que não é mais de uma criança, mas não configura ainda um corpo adulto, e com ele todas as implicações psicológicas: o forte desejo de voar para longe do ninho (família), mas que vai colidir com a dependência real sobre ele.

Apenas uma pequena parte é escolhida para perceber, pensar, e depois por um ato de vontade se comportar, isso graças à consciência e o conhecimento dos outros e do contorno. Para lidar com a dúvida deve-se ter flexibilidade de pensamento e a noção de ausência de controle absoluto, nem esperar a perfeição em todas as coisas.

É necessário refletir sobre o grau de incerteza que cada decisão inevitavelmente traz consigo, examinar as alternativas, associando seus próprios estados emocionais: aprender a reconhecer a experiência emocional internalizada, para ‘metabolizar’ a escolha, pois 80% da nossa vida évresultado de escolhas, o restante são contingências. 

2 Comentários
  • J. R. Breseghello

    Cogito, ergo sum!

    • Auriane Rissi

      ‘Eu duvido, logo penso, logo existo!’

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