Luto: lamentar pode ser fator crucial para ajudar a ‘viver’

Quantas vezes – será para sempre? Quantas vezes o imenso vazio vai surpreender como uma novidade completa, infligindo a mesma dor vezes sem conta.

Escreveu Mark Twain sobre a morte: ‘É um dos mistérios da nossa natureza, que um homem estando completamente despreparado possa receber um golpe como esse e continuar vivendo (…)’

Lamentar pode ser fator crucial para ajudar a ‘viver’.

Como lamentamos, ou se a lamentação vai terminar, depende do modo como cada um sente a perda, depende da idade e da idade de quem partiu, do quanto estamos preparados para isso, depende de como a pessoa sucumbiu à morte, das forças interiores, do apoio externo, e sem dúvida da história de cada um – história ao lado da pessoa que morreu e a história individual de fé, amor e perdas. 

Participar de funerais, confortar pessoas, vivenciar tragédias na mídia, estudar, nada confere tanta propriedade no assunto como ‘embarcar’ na experiência. A travessia é singular, como a de um rio, podem descrever como é, suas margens a cor da água, sua beleza, seu fluxo, mas fazê-lo por si proporciona impressões que permitem sentir, mensurar e talvez descrever. 

Entretanto, parece haver um padrão típico no luto normal do adulto, a despeito do temperamento individual. E, aparentemente todos concordam em dizer que se passa por fases de mudança, fases sobrepostas na lamentação, e que depois de mais ou menos um ano ‘concluímos’ a parte principal do processo. E a primeira fase desse processo, tenha a perda sido antecipada ou não, é de ‘choque, apatia e uma sensação de descrença’.

Talvez o choro e a lamentação sejam em voz alta; talvez sentados em silêncio; talvez períodos de dor se alternem com períodos de atônita incompreensão.  O choque pode ser menor quando se vive muito tempo com a iminência da partida da pessoa amada, mas o fato de alguém amado não existir mais fisicamente está além do que se pode aceitar.

morte é um dos fatos da vida que é reconhecido mais com a mente do que com o coração.  E geralmente, enquanto o intelecto reconhece a perda, o resto de nós continua tentando arduamente negar o fato. Alguma incredulidade e negação podem continuar muito depois do choque inicial. Na verdade, pode ser necessário todo o período de luto para que o impossível seja aceito como uma realidade. 

Depois da primeira fase da dor, que é relativamente curta, há uma fase mais longa, de intenso sofrimento psíquico. Choro e lamentação. Ocorrem mudanças bruscas de temperamento e dores físicas. Há fases de letargia, atividade exagerada, regressão (estágio mais carente: colo!) ansiedade pela separação e um desespero sem remédio. E raiva também. 

Surgem questionamentos com quem podia ter feito algo e não fez para salvar a pessoa amada. Com Deus, por levá-la precocemente. Pode haver indignação com a pessoa que partiu. ‘Porque fez isso comigo?’ ‘Porque nos deixou?’ Sentimentos de culpa – culpa irracional ou justificada, são quase sempre parte do processo de dor pela perda sofrida. Raiva, culpa, idealização e tentativas de reparação, parecem sugerir que na realidade sabemos que a pessoa partiu.

John Bowlby, no seu livro Perda, descreve esse paradoxo: ‘De um lado está a crença de que a morte ocorreu com toda a dor e desespero que ela traz’; do outro, está a negação da morte, acompanhada pela esperança de que tudo vai ficar bem e pela necessidade urgente de procurar e rever a pessoa perdida. Nessa fase de agudo sofrimento, alguns sofrem em silêncio, outros com palavras.

Cada um ao seu modo, todos passam pela angústia e pelas lágrimas, a raiva e a culpa, a ansiedade e o desespero. E cada um a seu modo, depois de conseguir finalmente passar pelos confrontos com as perdas inaceitáveis, podem chegar ao fim do período de lamentação. Através dos lamentos a dor foi reconhecida, sentida e superada, os mortos libertados e as lembranças guardadas dentro de cada um, assinalando o ‘final’ do luto, embora algumas vezes ocorra choro, saudades, esse fim significa um grau importante de recuperação, aceitação e adaptação. 

Nesse momento recupera-se a estabilidade, a energia, a esperança, a capacidade para ter prazer e investir na vida. Pouco a pouco se retorna ao mundo. Uma nova fase. Percebem-se cores. O canto dos pássaros. As flores. O céu agora é azul. Há algo em volta. Família! Amigos! Pessoas! Rotina! E ela, a Vida!

Auriane Rissi

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