Envelhecimento: Vida aos anos ou apenas anos à Vida

É possível envelhecer bem, como?

“Como são difíceis e dolorosos os últimos dias de um velho! Fica mais fraco a cada dia; os olhos quase não veem, os ouvidos ficam surdos; a força desfalece; o coração não conhece mais a paz; a boca silencia e não diz palavra. O poder da mente diminui e hoje não pode lembrar como foi ontem. Todos os ossos doem, coisas que até pouco tempo eram feitas com prazer são dolorosas agora; e o paladar desaparece(…)

( Ptá-hotep – 2500 a. C.).

É evidente e ninguém pode negar que a velhice significa o peso de profundas e várias perdas – da saúde, das pessoas queridas, de um lar que foi refúgio e orgulho, de um lugar na comunidade, do controle e das escolhas. O corpo informa o declínio das forças e da beleza. Os sentidos ficam menos aguçados, os reflexos lentos. A concentração diminui novas informações são processadas com menor eficiência, e há lapsos. – Como é mesmo o nome dela?

A velhice, muitas pessoas concordam é o que o ser humano tem que vivenciar se quiser vida longa. Não se pode falar da terceira idade como uma entidade isolada, uma doença, o término, a espera do fim. Pois embora a aposentadoria compulsiva, o tratamento médico, o seguro social e descontos para pessoas de idade marquem tecnicamente o começo da velhice, experiências de perdas importantes relacionadas à idade avançada podem ocorrer apenas muitos anos mais tarde.

Os estudiosos do processo de envelhecimento tendem atualmente a subdividir a velhice em:
– velho jovem (60 -65), velho médio (75-85), velho velho (85 -…).

Embora a saúde, amigos, e uma boa renda – sem dúvida, facilitem a aceitação da velhice, é a atitude em relação às perdas, bem como a natureza dessas perdas, que determina a qualidade da velhice.

Existem velhos, tanto homens como mulheres para os quais a cada dor, cada mal-estar, cada declínio físico ou limitação representa um ultraje, um assalto, uma humilhação, uma perda intolerável. Mas há também os que conseguem uma visão mais positiva do assunto e que podem dizer como o escritor francês Paul Claudel “oitenta anos: sem olhos, sem ouvidos, sem dentes, sem pernas, sem fôlego! E no final das contas é espantoso como se pode passar bem sem eles!”

A diferença entre essas duas atitudes, diz o cientista social Robert Peck é a diferença entre “preocupação com o corpo” e “transcendência do corpo.”

Para entendermos melhor a maneira de envelhecer precisamos entender a diferença que há entre:

  • preocupação com o corpo – tratar o envelhecimento físico como inimigo e senhor absoluto;
  • transcendência do corpo – fazer as pazes com o envelhecimento e as limitações que ele traz para o corpo.

Foi observado também que dado o declínio físico pode-se descrever três tipos de pessoas:

  • o pessimista saudável – vê a si mesmo como semimorto e incapaz de qualquer coisa;
  • o otimista saudável – vê-se em plena forma, capaz de tudo;
  • realista saudável – verá claramente seus déficits e também o que ainda pode fazer a despeito deles.

Embora envelhecimento não seja doença, há um retardamento das funções físicas e um aumento das vulnerabilidades que podem fazer com que uma pessoa ativa cheia de vida aos sessenta e cinco anos caia de joelhos aos oitenta. Certos danos físicos podem tornar a pessoa dependente contra a sua vontade. Existem doenças orgânicas irreversíveis do cérebro que nem coragem nem força de vontade podem sobrepujar. E mesmo que não sejam atormentados pela artrite, pela doença de Alzheimer, por catarata, doenças cardíacas, câncer, derrame e todo o resto, o corpo tem meios sem conta para lembrar ao octogenário: a idade.

Não existe um modo “certo” de viver completamente a velhice. As pessoas envelhecem de vários modos. E às vezes caminhos opostos podem levar a uma alta satisfação na vida.
O bom envelhecimento reúne tipos como:

  • reorganizadores – continuam a lutar contra o encolhimento do seu mundo, mantendo a vida extremamente ativa, substituindo por novos relacionamentos e novos projetos seja o que for que a idade lhes roubou;
  • concentrados – demonstram níveis médios de atividade, substituindo um vasto espectro de participação e interesses por um ou dois interesses especiais, como jardinagem ou trabalho de casa, ou os netos;
  • desligados – introspectivos, mas não alienados, que aceitam a diminuição do seu mundo, adaptando-se a ela, e que encontram grande satisfação numa vida contemplativa, isolada, de pouca atividade.

A velhice pode ser ativa ou desligada, rabugenta ou serena, a conservação da fachada ou a retirada da máscara, a consolidação do que se aprendeu e do que se fez antes, ou uma nova – até mesmo não convencional – exploração.

Alguns teóricos veem a terceira idade como uma etapa de desenvolvimento com suas próprias questões e tarefas especiais.

Os adultos precisam realizar as tarefas psicológicas de cada etapa de sua vida, de uma maneira emocionalmente sadia, ou seja, desde o início, pois ao chegar à velhice as tarefas e questões estarão melhor elaboradas e de fácil compreensão.

Erickson – acha que a maior realização na Terceira Idade é um senso de integridade do ego, baseado na reflexão sobre a vida. Para aceitarem a chegada da morte é preciso que aceitem suas vidas, avaliando e recapitulando, não como sendo uma vida que não volta mais, mas sim lembrando seus momentos bons e até mesmo ruins e aceitando os fatos sem se arrepender do que fez ou do que não fez.

Os adultos que não alcançam essa aceitação são dominados pelo desespero, pois percebem que o tempo é pouco para procurar novos caminhos para a integração do ego.

Peck – ampliando a teoria de Erickson descreve a seguir três ajustamentos psicológicos na terceira idade:

1. auto definição mais ampla X preocupação c/ papéis profissionais: as pessoas que tiveram suas realizações pessoais no trabalho precisam redefinir seu valor e procurar outras formas de se realizar, explorando outros novos interesses pessoais.

2. transcendência do corpo X preocupação com o corpo: a medida que suas habilidades físicas diminuem as pessoas têm melhor adaptação quando encontram atividades que não requer muito esforço e atividade física. Com a idade é natural que essas pessoas entrem em desespero por não poder mais exercer certas atividades, por isso é necessário que cultive poderes mentais e sociais que possam crescer com a idade.

3. transcendência do ego X preocupação com o ego: o ajustamento mais difícil e mais importante para essas pessoas é ir além das preocupações consigo mesmas. Podem alcançar essa aceitação se aceitarem e reconhecerem o que fizeram, o seu significado, aumentando o interesse de si mesmas, a partir do momento em que passar a contribuir com os outros.
Esses ajustamentos permitem que diminuam essa preocupação consigo mesmas, ou seja, trabalho, família,vida financeira e passe a compreender o seu propósito de vida.

Muitas pessoas em idade avançada reexaminam suas vidas, concluem negócios inacabados e decidem como melhor canalizar suas energias e passar seus últimos dias, meses ou anos.
Profundamente conscientes desejam deixar legados para seus filhos ou para o mundo, passar adiante os frutos de sua experiência, e validar o significado de suas vidas.

Outros simplesmente desejam aproveitar essa última chance de desfrutar de seus passatempos prediletos ou fazer coisas que nunca tiveram tempo para fazer quando eram mais jovens.

A vida da maioria das pessoas mais velhas é enriquecida pela presença de pessoas que lhes cuidam e das quais se sentem próximas. Embora elas possam ver as pessoas com menos frequência, os relacionamentos pessoais, principalmente com os membros da família, continuam a ser importantes até a idade avançada – talvez mais do que antes.

Apesar das mudanças físicas do envelhecimento, muitos dos mesmos processos psicológicos básicos que encontramos nos adolescentes, jovens adultos e adultos na meia-idade ainda estão em ação na velhice. Por exemplo, a satisfação com a vida prevista, basicamente, pelos mesmos fatores em cada idade: apoio social adequado, um senso de controle, baixa incidência de mudanças de vida inesperadas ou não planejadas e condições financeiras adequadas.

Em quase todas as áreas da vida, a retenção de capacidades na velhice depende do uso repetido, da prática – “use-o ou perca-o”. Isso é menos válido na juventude, o corpo e a mente conseguem operar bem, apesar da negligência e desuso. No entanto na fase adulta, a otimização depende do uso regular. A mente permanece atenta, dependendo do quanto é utilizada; o corpo retém funcionamento dependendo do quanto é exercitado, as relações sociais permanecem apoiando com estímulo e contato regular.

O envelhecimento bem-sucedido não significa enganar a morte ou, necessariamente viver mais anos. Significa isso sim, o uso dos anos disponíveis em sua capacidade máxima.

A discussão sobre o que constitui envelhecer bem está longe de estar resolvida, as pessoas diferem muito quanto à maneira em que podem viver e efetivamente vivem – e querem viver – seus últimos anos de vida. A questão da qualidade versus quantidade de vida depende muito do que acontece com o corpo enquanto envelhece.

Auriane Rissi

Referências Bibliográficas

PAPALIA, Diane E. & OLDS Sally Wendkos – Desenvolvimento Psicossocial na Terceira Idade.
BEE, Helen – O Ciclo Vital.

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