Descomplicando a Adolescência

Após o nascimento a evolução do indivíduo saudável se constitui em etapas, e a adolescência é uma delas. Nesse momento ele deixa sua condição de criança para sofrer mudanças psicológicas que se manifestam nesse período, correlacionadas com mudanças corporais. 

Devido essas mudanças é necessário elaborar o luto pelo corpo, identidade e relação com os demais que se transformaram durante essa passagem. A imagem e a identidade que tem de si próprio precisam adquirir uma nova ideologia para adaptar-se ao mundo, permitindo assim a interação com o meio, que agora exige novas pautas de convivência. 

A perda que o adolescente precisa aceitar ao fazer o luto pelo corpo é dupla: a de seu corpo de criança, quando caracteres sexuais secundários colocam-no ante a evidência de seu novo status, a menarca na menina, e o sêmen no menino, que lhes impõem o testemunho da determinação sexual e do papel que terão de assumir, não só de união com o parceiro, mas também de procriar. 

Esse processo afeta também os pais, na dificuldades de aceitar o crescimento e as transformações que o acompanham, pois a genitalidade e a livre manifestação da personalidade que surge dela se fazem presentes, gerando incompreensão e rejeição, que as vezes se mascaram na concessão de uma liberdade exagerada, que é vivida como abandono pelo púbere. 

Na realidade é uma forma de abandono, pois o adolescente teme perder a dependência infantil, que ainda se faz necessária, esse período oscila entre a dependência e a independência extremas, e só a maturidade auxiliará nesse posicionamento, e quando a sua maturidade biológica está acompanhada por uma maturidade afetiva e intelectual, que lhe possibilita a entrada no mundo adulto, estará munido de um sistema de valores, de uma ideologia que confronta com a de seu meio e onde a rejeição a determinadas situações se cumpre numa crítica construtiva, adquirindo teorias estéticas e éticas.  

Os pais devem, a partir desse momento, orientar a relação de ambivalência e de críticas, que substitui a relação de líder ou ídolo como era anteriormente. O enfrentamento do adolescente nessa fase se avoluma quando tem que renunciar a sua condição de criança; deve renunciar também a ser tratado como tal, já que a partir desse momento se é chamado dessa maneira será com um matiz depreciativo, zombador ou de desvalorização.  

Além disso, denota-se a perda do vínculo dos pais com o filho infantil, da identidade do adulto frente à identidade da criança defrontam-no com uma luta similar às lutas criadas pelas diferenças de classe, pois os pais tentam exercer domínio sobre os filhos através de sua dependência financeira, criando ressentimentos entre as duas gerações. 

Sofrimento, contradição, confusão, os transtornos são deste modo inevitáveis; podem ser transitórios, podem ser elaboráveis, mas provavelmente esses sentimentos podem ser suavizados se o adolescente for orientado, continuar recebendo o contorno/limites dos pais, alinhados no mesmo propósito, podendo exercer sua independência sem deixar de pertencer à família e ao grupo, agora seus iguais. 

A qualidade do processo de amadurecimento e crescimento dos primeiros anos, a estabilidade nos afetos, a soma de gratificações e frustrações e a adaptação gradativa às exigências ambientais vão marcar a intensidade e a gravidade dos conflitos. Porém o específico do conflito neste período é algo totalmente inédito no ser: sua definição na procriação e a eclosão de uma grande capacidade criativa.

Se as conquistas são desvalorizadas pelos pais e pela sociedade, surgem o sofrimento e a rejeição, podendo reprimir as primeiras tentativas de definir sua vocação. Os adultos e os adolescentes duelam entre si por três exigências básicas de liberdade: a liberdade nas saídas e horários, a liberdade de defender uma ideologia e a liberdade de viver um amor e um trabalho. Porém destas três os pais se apegam na primeira, pois assim irá controlar as demais.

O adolescente percebe muito bem que quando os pais começam a controlar o tempo e os horários estão controlando algo mais: seu mundo interno, seu crescimento e seu desprendimento. O jovem sadio de hoje está “antenado” para a problemática do adulto, e pode-se dizer que é provável que o adulto, em alguns temas, possa aprender com o adolescente mais do que o adolescente com o adulto. 

Toda a adolescência tem, além da característica individual, as características do meio cultural, social e histórico desde o qual se manifesta, e o mundo está cada vez mais exigente no que diz respeito a liberdade sem violência ou restrições. A adolescência é caracterizada fundamentalmente por ser um período de transição, entre a puberdade e o estado adulto do desenvolvimento e que nas diferentes sociedades este período pode variar, como varia o reconhecimento da condição adulta que se dá ao indivíduo.

Entretanto há uma característica própria no processo adolescente em si, uma situação que obriga o indivíduo a rever seus conceitos, projetando-se para a vida adulta. O adolescente passa por desequilíbrios e instabilidades extremas de acordo com o que se sabe. Essa fase aponta para períodos de elação, de introversão, alternando com audácia, timidez, falta de coordenação, urgência, desinteresse ou apatia, que se sucedem ou são paralelos com conflitos afetivos, crises religiosas, filosóficas, condutas sexuais para o heteroerotismo e até para homossexualidade ocasional. 

Sintetizando as características da adolescência podemos descrever os seguintes sintomas que constituem esta fase:

– Busca de si mesmo e da identidade
– Tendência grupal
– Necessidades de intelectualizar e fantasiar
– Crises religiosas – ateísmo intransigente ou teísmo fervoroso
– Evolução sexual manifesta
– Atitude social com tendência anti ou associais de diversa intensidade
– Contradições nas manifestações de conduta
– Separação progressiva dos pais
– Constantes flutuações do humor e do estado de ânimo.

Auriane Rissi

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