Cada um dá o que tem!

Quantas vezes nos surpreendemos com reações inesperadas frente algo que ofertamos com pureza de alma, com boas intenções; aposto que pensaram: ‘de boas intenções o inferno está cheio’, de fato deve estar, porém penso que o meio em que vivemos também está, depende do que faz eco em nosso coração.

Ofertamos ao mundo o que somos!

Externamos ao contorno o que temos o que cultivamos em nossa mente, o que levamos em nossa bagagem – o que fazemos com este conteúdo acumulado vida a fora. ‘O que faço com o que a vida fez de mim?’ Claro que ao longo de nossa trajetória vamos conhecendo satisfação e frustração, não dá para ter tudo sempre, é exatamente esse equilíbrio que define a nossa formação.

No entanto algumas pessoas são tomadas pela frustração e dão o tom de seu estar no mundo. E são tantas! A pessoa frustrada segue criticando destrutivamente a vida alheia, ao invés de procurar fazer algo de bom em sua própria; limita-se a recriminar tudo o que os outros fazem. Claro, é muito mais fácil criticar, apontar rumos para os outros, do que fazer a coisa certa quando tem escolha.

Loucos são os outros! Errado é o comportamento do outro. Ora, se tem lucidez, e essa competência toda, se conhece tudo sobre a vida, se sabe apontar em todas as direções, por que não procura fazer a coisa certa, ao invés de limitar-se a dizer que o mundo está errado? É fácil afirmar que ninguém sabe fazer as coisas e como devem ser feitas.

O frustrado subjuga o outro. Sabe, mas não faz. Aliás, nada faz para comprovar a assertiva de suas críticas. Limita-se a dizer que depois fará algo em benefício próprio. Sempre depois! Aliás, é sempre para amanhã as ações que dizem respeito à própria mudança, dificilmente saem do lugar, e orbitam em torno de si mesmos.

Pessoas assim acabam se isolando do mundo, não conseguindo fazer amigos, salvo pessoas que compartilhem de suas ideias, que pensem da mesma maneira limitada, e passam a vida apenas destilando veneno em suas palavras. Tanto criticam, tanto ofendem, tanto magoam pessoas, que caem em descrédito total.

Todos se cansam de sua amargura, até quem um dia acreditou, pois essas pessoas não levam nada adiante, não edificam, não melhoram o seu quadrado, não sonham – ficam elucubrando, não fazem planos concretos, vivem em devaneios, pegando carona no sucesso alheio, para depois ficarem falando sozinhas. Dão o que tem.

Sobre isso, me veio à mente uma história que ouvi ao visitar o Museu Dona Beja, em Araxá. Como é sabido, Ana Jacinta de São José, incomodava a conservadora sociedade local com a postura à frente de seu tempo. Certo dia recebeu um presente, para sua surpresa era um recipiente com estrume.

Sem titubear, foi ao jardim, pegou um de seus melhores vasos, depositou o estrume para adubar, após alguns dias quando o vaso estava em flor, enviou para a remetente do inusitado presente um belíssimo vaso de flores, adubadas e vistosas, no bilhete escrevera: ‘Cada um dá que tem’.

Se a história é verdadeira ou não, desconheço, porém faz jus ao perfil de uma mulher que marcou época com sua postura diante da vida; de enfrentamento, não de vitimização. Deu resposta nova diante de um fato que tinha resposta pronta: de revidar na mesma moeda e estimular o embate.

Sem melindres, com uma presença de espírito admirável, Beja não permitiu que as frustrações alheias a contaminassem, muito menos determinassem sua conduta e seu humor; naquele momento cultivou flores, não o mal, estancando-o em si. Fez com que o mal morresse ali. Esse é o diferencial.

Até onde conseguimos neutralizar ações, comentários de pessoas que convivemos, que do contrário podem ditar o tom e a cor do nosso dia. O que oferecemos em troca diz muito a nosso respeito. O outro nos afeta se assim permitirmos, e lhe atribuirmos esse poder. Que tal tirarmos certas pessoas do trono?

 Auriane Rissi

3 Comentários
  • J. R. Breseghello

    Que texto lúcido e indpirador! Precisamos mesmo prestar atenção ao que se passa nas relações!

    • Auriane Rissi

      Obrigada! A lucidez e a inspiração provém da realidade, caro amigo.
      Prestar atenção nas relações, de acordo como esta mesma realidade, é uma questão de sobrevivência.
      Vivemos tempos estranhos, a blindagem é necessária.
      Abraço

  • Célia Regina

    Amei o texto.

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