Parar é perder. A vida se ganha é no caminho.

Olha, se eu pudesse eu caminhava para sempre. Caminhar, sabe? Caminhar mesmo, para além das figuras de linguagem. Caminhar de fato. Andar, um pé depois do outro, num chão de pedra sob o sol, a lua, andar na chuva, no vento, até o fim do mundo. Até não haver mais tempo, mais fôlego. Até não haver mais para onde ir.

Pisar a grama fria das manhãs mais claras, guardar paisagens mornas, alaranjadas, de tardinhas luminosas, desviando de um buraco aqui e ali, respirando fundo. Que além das substâncias químicas liberadas no organismo de quem se exercita e se movimenta, o andar em frente nos libere o olhar. E que ele nos leve voando para bem mais longe, para além dos cantos aonde chegam os pés.

Assim, batendo pernas pelo mundo, resgataremos esquinas perdidas em nosso aqui dentro. Aquele relâmpago lá longe, um cheiro de chuva distante, um vento de boa aventurança. Vento de festa. Brisa de alegria. Vozes e risos de tardes idas. Andar nos manterá de pés firmes sobre a vida, juntos, celebrando nosso estar aqui.

Enquanto andamos, o sol nos queima, a brisa nos sopra, a lua acende sobre nós a noite em sua alegria de lâmpada nova, supernova. Caminhando, suamos nossos venenos, purgamos nossas dores, amansamos nossas distâncias, perdemos velhos medos no caminho. Andando, não tememos mais a morte e a vida se torna uma estrada sem fim, que recomeça e se fortalece em seu passo a passo eterno.

Caminhar. Caminhar até para lá da curva da estrada, caminhar em companhia amiga. Caminhar.

E quando os tropeções inevitáveis nos sobressaltarem, que nos derrubem mas nos empurrem para a frente, nos arranquem as unhas mas não a esperança. Que o tombo seja franco e nos esparrame no solo duro de onde levantaremos mais fortes, a tempo, e retomaremos juntos nosso caminhar adiante.

Andando, haveremos de ser melhores. Andando, pisaremos terrenos raros, abriremos caminhos novos, deixaremos pegadas claras a quem haverá de nos seguir. E chegaremos, enfim, ao melhor de nós mesmos. Se eu pudesse, eu caminhava para sempre.

André J. Gomes

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