O amor e sua fantástica loteria dos encontros

Sim, eu concordo. O amor não é só questão de sorte. A gente não senta e espera. O amor não cai do céu. Essa gente que ainda acredita no amor vai em busca e faz a coisa acontecer. Transforma sentimentos tímidos em relações risonhas, multiplica situações amorosas, se lança, se joga, trabalha para construir e fortalecer o amor.

Então, pensando assim, nossa tão sonhada felicidade afetiva não há de ser somente um privilégio dos sortudos. Mas, cá entre nós, o acaso tem um papel determinante nisso tudo. Ah, tem! Agora mesmo, em algum lugar, tem alguém se separando, descobrindo uma infidelidade, decidindo aos soluços acabar com tudo e seguir em frente sob a promessa de nunca, nunca mais se permitir o vexame de entregar seu coração a qualquer um.

Mal sabe essa pessoa que no lado oposto do mundo tem outro alguém embarcando ao seu encontro sem nem sonhar sua existência, e que em breve eles se tropeçarão numa batida de automóvel e trocarão os telefones para essas coisas do seguro, burocracia, e se apaixonarão a despeito de toda insegurança, embarcando destemidos, de mãos dadas, na ladeira abaixo do encantamento. 

O amor, ahh… o amor é uma loteria que ninguém ganha sozinho! Vem a sorte, nos cai no colo, no susto, e é preciso aproveitar, administrar, fazer render! É aí que começa a labuta. E você nunca ouviu aquela história do sujeito que acertou sozinho na loteria e torrou todo o dinheiro até acabar pobre e sozinho de novo? Ouviu, sim. Acontece. No amor é bem parecido, só não tem ganhador solitário. Ganham sempre o ser amante e o ser amado. E vice-versa.

No amor ganha todo mundo! Amor de verdade, generoso, amor que é querer o bem do outro, de si mesmo e de todos os seus. O amor é a saúde da vida! Ilumina os instantes de angústia, alivia nossas dores e aquieta a impaciência que, lá no começo de tudo, nos arrancou do paraíso. O amor, assim, recebido e ofertado, amor compartilhado, dá até sorte. Fortuna! Ah, Meu Deus!

Nesse mundo de tanto ódio e desconfiança há de haver saída para todos os nossos males, e toda saída passa pelo caminho do amor! Começa na ideia descabida dos românticos, na conspiração adocicada dos carentes e vai se estendendo nos encontros inevitáveis, nos empurrões inesperados do acaso, no amor acometendo a vida aos poucos em seu ímpeto doce e realizador.

Até que todos, todos nos transformemos em descarados amantes do amor, sensíveis, esforçados e sinceros trabalhadores dispostos a todo o bem possível, entregues à prática diária e santa de dar e receber e fazer amor. Em nosso grandioso mundo transformado, começaremos levantes tímidos em cada alcova, transbordaremos sentimentos felizes pelas janelas e portas até desaguá-los nas calçadas, espirrando carinho na gente que passa lá embaixo, molhando de afeto as barras das calças dos pedestres. 

Assim, o mundo se tornará um único e grande campo de descontração, uma enorme horta de tolerância e diversidade. Um infinito universo para a livre troca de ternura e apoio, em que todos nos levaremos adiante e nos amaremos no pior e no melhor de nós mesmos. Inteiros, trabalhando pela manutenção de nossa sorte grande, a fortuna de nosso encontro esperado e merecido.

André J. Gomes
Publicado originalmente na Revista Bula

2 Comentários
  • Fábia

    Um viva ao AMOR!

    • Auriane Rissi

      Vivaaaaaaa!

Deixe um comentário

Você pode usar estas tags HTML <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>